Regime de Caixa vs. Regime de Competência. Entenda as diferenças e semelhanças.

Sabemos que os homens eram nômades e viviam buscando comida e abrigo contra intempéries e ameaças temporais. Posteriormente, começaram a se estabilizar em grandes grupos, bem como a plantar para tirar o seu sustento da terra de forma programada e possibilitando a sua permanência em uma terra específica.

Essas sociedades não eram capazes de produzir tudo o que era necessário e começaram a realizar trocas entre si, participando do surgimento do que é conhecido como comércio. Quem produzia legumes, cedia legumes para quem produzir a carne, em troca desse produto. Ontem, vi um exemplo fantasioso dessa realidade: os episódios finais da sexta temporada de The Walking Dead. Um grupo conseguia produzir muitos alimentos, mas não eram guerreiros e, então, decidiram ceder metade de seus estoques a fim de que o grupo de Rick Grimes pudesse eliminar seus inimigos.

Há registros de atividade comercial desde os registros iniciais da história: no Egito, Mesopotâmia, Babilônia e outros. Dá pedra polida até os tempos atuais. Ou seja, registrar o patrimônio e a atividade econômica é uma necessidade social que sempre existiu. Os homens começaram a registrar seu patrimônio na pedra polida, passaram para o papiro, papel e, hoje, em sistemas computadorizados integrados com a produção, gestão de materiais e outros setores/processos organizacionais.

Um exemplo bem simples de contabilização do patrimônio no mundo antigo é a de um homem que possuía ovelhas. Uma vez por mês tal homem realizava a contagem de seu rebanho: para cada ovelha que ele separava, era jogada uma pedra em um cesto. Caso houvesse mais pedras que a contagem do mês anterior, seu patrimônio havia crescido. De outra forma, seu patrimônio teria diminuído ou até mesmo se mantido. Isso é patrimônio e não dinheiro. Todo dinheiro é patrimônio, mas nem todo patrimônio é dinheiro.

Existiram momentos em que o patrimônio era majoritariamente a terra e seu cultivo. Na revolução industrial, de 1.760 à 1.840, a terra certamente tinha o seu valor, bem como os galpões industriais, mas valor maior possuíam as máquinas à vapor que ditavam a marcha da produção. Atualmente, a informação e o conhecimento possuem valor descomunal. Tudo isso é patrimônio que, por vezes geram riquezas financeiras e por vezes representam apenas fatos econômicos.

Nessa introdução, tentei evidenciar a diferença entre dinheiro e patrimônio. Terras, cultivo, animais, construções, veículos, máquinas e até mesmo o dinheiro formam o patrimônio das organizações, enquanto o seu caixa aceita apenas dinheiro ou seu equivalente. É por isso que existe um regime diferente do de caixa: registrar eventos econômicos e não apenas financeiros.

O regime de caixa é o que usamos no dia a dia e até mesmo na gestão de pequenas empresas. Funciona assim, o dinheiro sai, a saída é registrada, o dinheiro entra, a entrada é registrada. Simples assim. A gestão da sua conta bancária provavelmente é feita pelo regime de caixa. Cada salário ou benefício que recebemos representa uma entrada, enquanto que cada gasto ou pagamento que fazemos representa uma saída do caixa.

Já o regime de competência, registra eventos econômicos. Quando alguém entrega leite em troca de feijões para outra pessoa, está realizando um fato econômico, mesmo que não exista dinheiro envolvido, ou seja, não representa um fato financeiro. Agora, caso alguém troque cerveja por alguns reais, estamos frente a um evento econômico com impacto no caixa.

Enquanto o regime de caixa registre apenas a movimentação do dinheiro, o de competência evidencia todos os eventos patrimoniais. Um exemplo que utilizei para explicar para meus colegas de curso como funciona o regime de competência foi o abastecer de um carro. Quando enchemos o tanque, entregamos dinheiro e recebemos o tanque de gasolina cheio.

Desse evento, percebemos que há uma diminuição imediata no caixa: pagamento do posto de gasolina. Todavia, não houve diminuição do patrimônio: parte do patrimônio que era dinheiro se transformou em gasolina. Ainda temos o patrimônio, porém em outra forma que não dinheiro. Todavia, quando começamos a dirigir e o combustível é queimado, está ocorrendo um evento econômico, mas não um efeito no caixa.

Percebo a estranheza de muitos ao analisar as demonstrações contábeis de empresas que possuem em seu patrimônio concessões públicas. A concessão é um elemento patrimonial que vai diminuindo conforme o tempo passa, não importando a frequência de recebimento de valores. Se a concessão possuir duração de 20 anos, todo ano um vinte avos desse contrato era desaparecer. Porém, durante todo esse período, o caixa não é afetado. A empresa continua recebendo dinheiro.

Quando a concessão acaba, não há uma diminuição abrupta do patrimônio, mas há uma abrupta de caixa, haja vista o patrimônio ter sido diminuído sistematicamente, respeitando o regime de competência, enquanto o caixa não. Esse é o caso da RAP (Receita Anual Permitida) das concessionárias ligadas à transmissão de energia elétrica como ALUP11, TAEE11 e TRPL3.

Essas empresas tem o direito de serem remuneradas por transportar energia e esse fato econômico é remunerado financeiramente. Segundo a ANEEL,

A Receita Anual Permitida (RAP) é a remuneração que as transmissoras recebem pela prestação o serviço público de transmissão aos usuários. Paras as transmissoras que foram licitadas, a RAP é obtida como resultado do próprio leilão de transmissão e é pago às transmissoras a partir da entrada em operação comercial de suas instalações, com revisão a cada quatro ou cinco anos, nos termos dos contratos de concessão.

Esse RAP é previsto em contrato, que representa a concessão. Toda a remuneração é baseada nesse instituto e tem efeito caixa, enquanto que o passar dos anos diminui o valor patrimonial do RAP.

Num último esforço na tentativa de transmitir a diferença entre o regime de caixa e o regime de competência, enumerarei vários fatos econômicos e seus respectivos efeitos em ambos os regimes, comentando os efeitos e evidenciando as diferenças.

Cenário 1. Aquisição à vista e em dinheiro de um veículo por R$ 40.000,00.

Regime de Caixa: Saída de R$ 40.000,00.

Regime de Competência: Não há efeito quantitativa neste regime. O que há de verdade é uma modificação qualitativa no patrimônio: R$ 40.000,00 em dinheiro se transformam em R$ 40.000,00 em veículo. Caso a entidade planeje utilizar tal veículo por 5 anos, deverá registrar uma despesa anual de R$ 8.000,00 com a depreciação, até zerar o valor do veículo ou apurar um valor residual.

Cenário 2. Segundo ano do contrato de concessão (RAP anual da TAEE11)

Regime de Caixa: Entrada financeira relativa ao RAP.

Regime de Competência: Receita relativa ao RAP, bem como a amortização (minoração) da concessão, que é um elemento patrimonial. Se o contrato for de 20 anos, irá amortizar durante todo esse tempo até zerar.

Cenário 3. Venda de mercadorias a prazo

Regime de caixa: zero de entrada e zero de saída.

Regime de Competência: Receita relativa à venda a prazo de mercadorias, haja vista ter ocorrido o fato econômico, embora não tenha ocorrido, ainda, a entrada de de dinheiro em caixa.

Comentários finais

Espero que tenha ficado clara a diferença entre os dois regimes. Entender a diferença nos ajuda a entender por que as vezes a empresa distribui mais do que o lucro, por exemplo. Isso pode ocorrer por que pode se ter recebido bastante caixa, mesmo sem ter ocorrido o fato econômico ainda. Por isso ocorrem distribuições, por vezes, maiores que o próprio lucro.

Quando uma empresa possui um lucro grande, mas a maioria dele ainda não refletiu no caixa, a companhia pode registrar uma conta de Reserva de Lucros a Realizar para, quando ocorrer a realização financeira, distribuir e cumprir o payout definido pela lei ou instituído.

 

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Como analisar Balanço Patrimonial – Parte 1 – Estudo de caso VIVT3

Após o término de posts sobre demonstração de resultado do exercício, fiquei em dúvida sobre escrever sobre balanço patrimonial ou demonstração de fluxo de caixa. Cara, fiquei muito tentado por falar de caixa, mas percebi que, didaticamente, era melhor começar pelo balanço, uma vez que vários indicadores financeiros dependem de itens do balanço.

Esse primeiro post falarei um pouco do que é o balanço patrimonial, o que é ativo, passivo e patrimônio líquido e sobre a equação do balanço patrimonial. Mostrarei como analisar de forma básica no site fundamentus e, conforme formos avançando. Falaremos sobre tópicos mais avançados.

Conceito de Balanço Patrimonial

Balanço patrimonial é a demonstração contábil que evidencia os recursos controlados pela entidade, bem como a origem financeira para sua produção ou aquisição desses recursos. Que demais! Vou até dar uma acentuada nesse conceito.

Balanço patrimonial é a demonstração contábil que evidencia os recursos controlados pela entidade, bem como a origem financeira para sua produção ou aquisição desses recursos.

Os recursos controlados são os ativos e a origem de tais recursos formam os passivos totais da entidade. Um balanço patrimonial, visualmente, é representado da seguinte forma:

ATIVOS

Do lado direito são representados em forma de lista todos os recursos da entidade, incluindo: conta bancária, veículos, máquinas, aplicações financeiras, imóveis, investimentos em outras entidades e outros recursos.

PASSIVOS TOTAIS

Do lado esquerdo permanecem, também em forma de lista, a origem de todos os recursos utilizados para a aquisição dos ativos. Uma parte do passível pode ser cobrada da empresa e outra não, esta é conhecida como patrimônio líquido.

Aplicação – Estudo de Caso VIVT3

No primeiro momento, pensei em estender vários conceitos de forma bem detalhada. Todavia, para o investidor, pode não ser tão interessante. O foco é pegar a ideia geral para analisar as ações e a fim de analisar as ações. Então, vamos nessa. No site fundamentus, podemos abrir o balanço de VIVT3 de forma gráfica e evolutiva.

vivt3_ativo

Aqui é possível observar que o ativo deu saltos quantitativos nos anos de 2011 e 2015. Tal fato tende a levar a companhia a ter uma maior possibilidade de gerar riquezas, embora também necessite de mais recursos. A aquisição e manutenção desses ativos só é possível de três formas: aumento do patrimônio líquido, aumento de dívida (passivo) ou aumento do patrimônio líquido.

Em outras palavras, se o ativo aumento, ou houve aumento de dívida ou o aumento do patrimônio líquido. De outra forma, se os ativos diminuíram ou diminuíram-se as dívidas ou diminuiu o patrimônio líquido.

Essa certeza se deve ao fato de existir uma equação fundamental. Ela afirma que o ativo é igual a soma dos passivos (dívidas) com o patrimônio líquido (Ativo = Passivo + Patrimônio Líquido). Ou seja, como eu havia dito, para subir o ativo, pelo menos um de seus componentes deve ter subido.

vivt3_pl

 Acima temos o patrimônio líquido daVIVT3. Mas que coincidência! Veja que aumentou nos mesmos moldes que o ativo. O fundamental é o entendimento de como o PL aumenta. Pois bem, as duas principais formas do PL aumentar é aumentando o lucro ou realizando novas emissões.

Isso se deve ao fato de que o pl é o patrimônio dos sócios da empresa e ele vem dos lucros e de novas emissões, fortalecendo a entidade. As dívidas são diferentes. Esse dinheiro terá que ser devolvido a terceiros que tem como única intenção lucrar juros com a empresa. Para descobri a dívida com terceiros basta subtrair do ativo o patrimônio líquido. Lembra da equação?

Passivo = Ativo – Patrimônio Líquido

Passivo é dívida. Utilizei o termo próprio para já familiar os não acostumados. Em nosso contexto, os passivos deVIVT3 somam cerca de R$ 30.000.000.000,00, uma vez que o ativo está em R$ 100.000.000.000,00 e o pl em R$ 70.000.000.000,00. No fundamentus consta uma dívida bruta bem menor, uma vez que nem todo passivo é uma dívida financeira, por que há outros tipos de passivos como salários, serviços a pagar e outras depesas.

Em outras palavras, nem todo passivo é uma dívida financeira e, portanto, nem sempre ensejará a cobrança de juros. A análise deve ter ciência do que se quer aferir dívidas financeiras ou dívidas em geral, que são chamadas de obrigações ou passivos.

Resumo

Bem, ativo é tudo que a empresa tem para gerar renda como carteira de clientes, imóveis, veículos, caixa, aplicações financeiras, máquinas, estoques e afins. Os recursos para a aquisição desses ativos devem vir de algum de dois lugares: patrimônio líquido ou passivo. O patrimônio líquido é o “dinheiro dos sócios”, enquanto que o passivo são obrigações, mas nem todas elas são financeiras. Então, fique atento.

Como avaliar empresas pelas margens bruta e EBIT – CGRA3 – Análise de Demonstrações Contábeis #10/10

Chegamos ao último post da série sobre Demonstração do Resultado do Exercício com muita satisfação e conhecimento adquirido. Aprendi bastante escrevendo sobre o assunto. Com o conhecimento maturado, aprendi a avaliar se entraria ou não em uma empresa e me sinto satisfeito.

Outrossim, tenho plena ciência de que há muitos outros assuntos sobre tal temo que poderiam ser tratados, mas para que não fique enfadonho e mesmo para que possamos desenvolver outro tema, resolvemos dar seguimento e falar de outra demonstração contábil. Acredito que pedagogicamente o certo seria seguirmos para o Balanço Patrimonial, mas estou com muita vontade de seguir para a Demonstração de Fluxo de Caixa, tendo recebido até mesmo pedido de leitores para que eu fale sobre DFC. Dúvida cruel!

Bem, o tema do post é o impacto das despesas administrativas sobre as margens. Tive essa ideia quando fui analisar as margens da Grazziotin. O gráfico me chamou atenção e resolvi falar sobre o tema. O post é bem simples, como todos os outros. Todavia, entendo ser um ótimo para entender como as margens funcionam.

Conforme evidenciamos em vários de nossos posts, basicamente, a margem bruta leva em consideração o retorno com relação ao custo dos produtos, enquanto que na margem EBIT, o retorno com relação ao custo dos produtos e às depesas administrativas/operacionais. Ou seja, a diferença é que a margem EBIT leva em consideração as depesas administrativas e operacionais.

graficos3

As margens acima dizem respeito à Grazziotin (CGRA3). Perceba que enquanto a margem bruta está subindo, a margem EBIT está caindo. Após a explicação do parágrafo anterior, fica fácil imaginar o porquê. Ora, houve uma aumento da eficiência com relação ao custo dos produtos vendidos, mas as despesas administrativas encareceram seja por conta do aumento do número de pessoal, seja por aumento de salários, enfim.

Caso a margem bruto não tivesse aumentado, o impacto no lucro seria considerável. Na forma atual, houve um equilíbrio. A margem EBIT caiu, mas foi compensada pela subida da margem bruta. Situação equilibrada.

Agora, como forma de exercitar o entendimento. Vejamos a imagem abaixo. Tente interpretar o porquê dos comportamentos dessas margens e suas consequências. Lembrando que o traço azul é a margem bruta e o verde, a EBIT.

margens_tipos

Tentei ilustrar várias possibilidades nas evoluções das margens. O tipo (d) é o que está mais próximo às margens da Grazziotin. O tipo (c) me lembra bem a margem da Cielo. Enfim, podemos fazer uma comparação com várias empresas. Entretanto, mais importante é entender.

Em (a), (b) e (c), percebemos que não há uma dissociação das margens Bruta e EBIT. Isso quer dizer que houve uma alteração no preço do produto para cima (a) ou para baixo (c). Até mesmo a manutenção dos preços (b).

Já no caso de (d) e (e), temos uma discrepância. Em (d), temos o caso de aumento de despesas administrativas/operacionais somada a uma aumento do preço de venda dos produtos ou diminuição dos custos dos mesmos. Em (e), o cenário é inverso. Há uma diminuição do preço ou aumento dos custos conjugados com uma diminuição drástica das despesas administrativas/operacionais.

Outrossim, torno a reforçar: entenda e reflita! Assim, chegaremos à sabedoria. Obrigado por acompanhar a série até aqui. Em breve devo estar começando a séria de fluxo de caixa ou de balanço patrimonial. Espero aprender bastante. Obrigado!

Dívida Líquida/EBITDA. Um estudo sobre o nível de endividamento de empresas – DRE #9/10

Quando analisamos empresas, um ponto chave é o seu nível de endividamento, uma vez que o resultado financeiro pode transformar um bom desempenho operacional em prejuízo. Veremos um pouco de história para entender o porquê de  o múltiplo dívida líquida por EBITDA é o mais importante indicador endividamento. Coloquei este tópico junto com outros sobre DRE por utilizar o conceito de EBITDA.

Com a Revolução Industrial (1.760-1.840), tivemos uma revolução na produção de bens de consumo. Anteriormente, a produção era artesanal e acabava que cada um era dono do que produzia e podia comercializar por si. A partir da revolução, os donos do capital puderam adquirir maquinário e contratar pessoas para trabalhar. Só havia duas opções: produzir artesanalmente e vender por si, o que ensejaria uma renda imprevisível, ou trabalhar para os capitalistas.

Nessa época, o valor da empresa estava intrinsecamente ligada a seu ativo imobilizado: suas máquinas, galpões destinados à produção e veículos de transporte e, portanto, para se estudar o endividamento dessas indústrias, bastava comparar seu nível de endividamento com o seu valor patrimonial (VPA).

Entretanto, a última revolução transformou o patrimônio em algo, por vezes, secundário. Vivemos na era da revolução da informação. Uma época em que comumente a informação é o próprio patrimônio, a própria fonte de renda e o próprio recurso. Comparar a dívida de uma entidade com o seu patrimônio pode ser algo tolo de se fazer em certos contextos.

Nesses casos, o indicador mais utilizado certamente é o (Dívida Líquida)/EBITDA. No livro FAÇA FORTUNA COM AÇÕES, pág. 61, Décio Bazin afirma que aprendeu duas grandes lições em um livro chamado AÇÕES & PRECAUÇÕES – de Gerard Haentzschel:

  1. Para investir no mercado acionário ninguém precisa saber mais do que as quatro operações aritméticas; e
  2. Um investimento vale pelo rendimento que proporciona.

O indicador de endividamento proposto atende justamente essa ideia. Pois bem, vamos analisar a fórmula. A forma como se calcula o EBITDA já foi detalhada no post sobre o tema. No entanto, o cálculo da dívida líquida será explicado a seguir.

Dívida Líquida = Dívida Bruta – Caixa ou equivalente de caixa

Dívida Bruta é, em termos simples, tudo que entidade deve a seus fornecedores, investidores, debenturistas, empregados e outros interessados e é caixa ou equivalente todo dinheiro em caixa, valores em conta corrente, títulos imediatamente convertidos em dinheiro e similares. Ou seja, a dívida líquida é a dívida bruta menos as disponibilidades imediatas da empresa em termos matemáticos.

Não significa que para o conceito de dívida líquida ter validade, a empresa terá que realmente amortizar parte de suas dívidas com o seu caixa, mas apenas uma avaliação que atenua a dívida, pois há recursos para isso.

Como o próprio nome do múltiplo sugere, para se calcular esse indicador basta dividir a dívida líquida pelo EBITDA.

Nível de Endividamento = Dívida Líquida / EBITDA*

O EBITDA representa o resultado operacional da empresa, ou seja, o que ela conseguiu gerar de valor agregado. Então, o indicador representa quantos exercícios seriam necessários para pagar a dívida desconsiderando outros fatores, notadamente, os impostos. Agora, aplicaremos esse indicador a algumas empresas para fins de consolidação do entendimento. Alguns dos dados serão retirados do site OCEANS14, enquanto que outros do Fundamentus.

*Considera-se o EBITDA acumulado dos últimos 12 meses.

Estudo de endividamento de TRPL4 e TAEE11

É interessante ressaltar que os múltiplos são melhor aplicado na comparação intrassetorial, uma vez que comparar empresas de setores diferentes pode gerar um entendimento problemático do nível de endividamento da empresa. TRPL4 e TAEE11 foram os papéis escolhidos nesta seção e ambos são do subsetor de transmissão de energia elétrica.

Código Dív. Brt. Disp. Dív. Líq. EBITDA* Nv. End.
TRPL4 1.288 259 1.029 7.967 0,13x
TAEE11 3.412 84 3.328 883 3,76x

*Por questão de praticidade, utilizei o EBIT no lugar do EBITDA (não precisei fazer cálculos para obter).

No quesito endividamento, fica evidente que TAEE11 está em um nível de endividamento superior ao da TRPL4. Entretanto, sabe-se que ela não está em uma situação muito grave devido o seu contexto. Ademais, utilizamos o EBIT no denominador, que é menor que o EBITDA. Caso utilizado o EBITDA, o múltiplo de ambas as empresas seriam menores. Entretanto, para fins de comparação, mantivemos a simetria.

Considerações Finais

 É muito comum o entendimento de que um múltiplo dívida líquida / EBITDA se situa em faixas:

  • O endividamento <= 2x é confortável;
  • O endividamento > 2x e < 3,5x é aceitável; e
  • O endividamento > 3,5x é considerado preocupante.

No entanto, cada empresa tem o seu contexto, mais do que avaliar o nível de endividamento da empresa que está sendo estudada com as concorrentes do setor, é acompanhar o endividamento, os motivos dele, as aplicações dos recursos, bem como a composição da dívida.

No mundo dos investimentos, não há fórmulas infalíveis. Utilize o indicador com parcimônia. Abraço!

PEG Ratio – Quando comprar uma ação?

Primeiramente, quero registrar que este é um dos posts deste blog que valem a pena ser lidos. Então, leia até o final e, se possível, comente. Isso faz muita diferença. Seja avançado ou novato, dê uma forcinha comentando ou compartilhando. Gosto muito desse indicador e acho que pode ser útil pra você também. Vamos lá.

Eu, como estudante de ciências contábeis e amante do mundo financeiro, venho analisando demonstrações financeiras há um tempo razoável. Estou contabilidade há 2 anos e há um ano e meio estudo para ser auditor fiscal. Então, tenho uma noção, ainda que pequena, sobre demonstrações.

As demonstrações financeira dizem muito sobre a saúde financeira de uma empresa. Se as demonstrações são boas, a empresa deve ter feito o que é certo. Todavia, notei uma grande deficiência no meu conhecimento. Se você quer entender bem e não comprar errado é preciso ter a capacidade de entender de economia, do setor em que a empresa atua, analisar as demonstrações financeiras e, com isso, saber o que e quando comprar.

Quando percebi isso, até um comentário do Mestre dos Dividendos no post sobre preço médio (leia depois) acentuou essa percepção. Certo, sei avaliar se uma empresa é boa ou não, mas e por que preço comprar??? Sabe, mesmo que se compre um excelente ativo, se o preço for alto, você fez um péssimo investimento, haja vista o seu retorno ser pequeno.

Quando encontrei o PEG Ratio fiquei bastante feliz. Pela primeira vez tive a noção de um indicador que me mostrasse a luz no fim do túnel. Basicamente ele vai fazer uma avaliação sobre o potencial de retorno de uma ação, ou seja, se está na hora de comprar ou não.

O que é o PEG Ratio

PEG Ratio significa razão preço por lucro por crescimento. O famoso P/L (Preço/Lucro), em inglês, é P/E (Price/Earnings). Em outras palavras, o PEG leva em consideração três parâmetros: o preço, o lucro E a taxa de crescimento da receita e isso faz toda a diferença.

PEG = Cotação da ação / Lucro por ação / Taxa de Crescimento da Receita

Resumindo, um preço sobre o lucro baixo é interessante, mas é muito interessante levar em conta o crescimento ou decréscimo da receita. Ora, obviamente, quanto maior a taxa de crescimento da receita, maior tende a ser o lucro.

Veja, nem sempre um P/L de 10 vai ser interessante. Se a taxa de crescimento anual da receita for 0,5%, talvez essa ação não seja um bom negócio. Agora, se a taxa de crescimento for de 35%, essa pode ser uma grande compra. Veja, esse indicador não prevê o futuro, mas pode ajudar bastante.

Estudo de caso

Avaliei algumas empresas que acredito estarem saudáveis e depois apliquei esse indicador. Percebi que algumas empresas saudáveis seriam boas compras, outras nem tanto. Então, elaborei alguns exemplos. Interessante observar que todos os valores foram tirados do site fundamentus.com.br.

 Código Preço (R$) Lucro (LPA-R$) Tax. Cresc. (%) PEG Ratio*
 KROT3 14,75  1,08  39,5  0,34
 ABEV3  18,02 0,76 2,8  8,47
 ITUB3 32,28 3,10 10,2  1,02
 BBDC3 27,28 2,46 21,3  0,52
 WIZS3 18,90 0,99 16,6  1,15
 ALUP3 6,49 0,38 5,4 3,16

* O PEG foi calculado como exposto no tópico anterior.

Apenas para fins de estudo deste indicador e considerando apenas seu funcionamento e nada a mais, as melhores compras seriam KROT3 e BBDC3. Já ABEV3 e ALUP3 seriam as piores compras. Cabe registrar que escolhi somente empresas que considero excelentes. Porém, nem sempre o que queremos está no preço que acreditamos ser justo e é ai que o PEG pode ajudar na identificação dessas oportunidades.

Interessante é que quinta-feira o ITUB3 apresentava uma margem de segurança quase tão boa quanto a do BBDC3, porém essa margem desapareceu, restando apenas pagar o valor justo pela ação: quando o PEG está próximo de 1.

Enfim, enquanto não começo a estudar o valuation, pretendo fazer uso ostensivo desta ferramenta. Claro que utilizarei apenas em empresas excepcionais, ou seja, após um filtro aplicado nas demonstrações financeiras. Era isso, espero que tenha gostado. Deixe seu comentário!

LPA, P/L e PSR: como analisar dre #8/10

Estamos rumo ao final da séria ligada ao desempenho das ações. Estamos no oitavo post sobre o tema. Pulei um número na sequência por que não numerei o primeiro post da série. Portanto, não se preocupe em achar o post de análise de DRE número 7. Os conceitos que se seguem são fruto de pesquisa. Durante as pesquisas para escrever este post, aprendi bastante. Leia até o final, pois deve haver algo útil.

Os investidores no afã de tomar decisões de investimento de forma racional buscam indicadores para dar suporte as suas decisões. O LPA, o P/L e o PSR são alguns deles, que serão apreciados neste post. A sequência é a mesma da apresentação.

LPA

O LPA ou lucro por ação é, como o nome sugere, o lucro da entidade dividido pelo seu número de ações. Se uma entidade possuir o lucro de R$ 1.000,00 e seu capital for composto por 1000 ações, a entidade possui um LPA de R$ 1,00. Esse valor, em si, não é bom, tampouco ruim. Significa única e exclusivamente o LPA é de R$ 1,00.

LPA = Lucro Líquido do Período / Número de Ações da Empresa

Uma ação com LPA maior que outra é uma opção melhor? Não. Reflita que se cada entidade tivesse o dobro de ações que possui, o LPA cairia pela metade. Resumindo, não serve nem mesmo para comparar empresas de um mesmo setor por esse indicador, haja vista cada empresa emitir o número de ações que achar mais interessante. Abaixo, o LPA de alguns bancos.

ITUB3 BBAS3 BBDC3 SANB3
R$ 3,10 R$ 2,80 R$ 2,46 R$ 0,81

O lucro por ação, normalmente, é utilizado como parâmetro para outros indicadores como o próprio P/L.

P/L

O P/L ou preço por lucro é a atual cotação de uma ação dividida pelo LPA. A atual cotação da BBAS3 é de R$ 27,84. Então, o seu P/L é de 9,94 (=27,84/2,80). Quase a totalidade dos investidores interpretam que tal indicador representa a quantidade de exercícios que levará para obter o retorno do que foi investido. No caso da compra da BBAS3, seria de quase 10 anos.

P/L = Preço da Ação / LPA

Cabe registrar que, embora seja  a ideia seja plausível, esse indicador utiliza dados do passado e, portanto, não reflete, de fato, o prazo em que o investidor terá o retorno do que foi investido. Além disso, não é por que a entidade obteve determinado LPA que irá distribuir tudo para os acionistas ou mesmo que as cotas serão corridas proporcionalmente pelo mercado, questão completamente imprevisível.

Isso posto, encontrei um artigo interessante do Instituto Assaf (http://www.institutoassaf.com.br/downloads/ANALISE_24_NOVEMBRO_2010_v2.pdf) que traz uma visão interessante sobre o indicador. Afirma que embora o indicador P/L não possa ser utilizado como payback (tempo que o investimento levará para trazer o retorno para o acionista), fornece duas informações interessantes:

  1. Quanto maior o P/L, menor é o risco. O indicador representa a inversão da rentabilidade frente o preço e, portanto, é um indicador de risco invertido. Segundo o instituto, “O P/L, em verdade revela duas importantes conclusões. Quanto mais
    baixo for o índice, mais alto é o seu risco. P/L mais alto revelam menor risco ao investidor”. Assim, para indicar o risco de forma direta podemos utilizar o L/P;
  2. Em um determinador setor, quanto maior for o P/L de uma empresa com relação às suas concorrentes, maior é a projeção da capacidade de criação de valor que o mercado atribui para a entidade.

Então o indicador oferece duas grandes informações: RISCO e CAPACIDADE DE GERAÇÃO DE VALOR, o que vai de encontro com o pensamento de vários investidores. Quando comecei a investir, um colega me disse: é o “prazo para a ação se pagar”. Além disso, em pesquisas mais frágeis, foi o que encontrei na internet. Portanto, talvez valha a pena comprar ações de empresas com um P/L alto se ela demonstrar, por exemplo, crescentes market share, lucro, patrimônio líquido, ativos etc.

Dentre várias diferenças, as mais marcantes entre ações ordinárias e preferenciais, temos que as ações ordinárias possuem TAG ALONG, enquanto que as ações preferenciais possuem um direito superior em relação à dividendos. Gurus como o Bastter dão preferencia a ações do tipo ON, porém, isso deve ser avaliado pelo investidor, uma vez que as ações PN podem ter um TAG ALONG tão alto quanto às ações ON.

ITUB3 ITUB4 ITSA3 ITSA4
10,51 11,52 7,9 8,12

Acima, o P/L de alguns empresas do setor bancário. Levando em conta a posição do Instituto Assaf, percebe-se que o mercado dá preferência as ações preferenciais nos casos acima (P/L mais altos). Analisando mais atentamente, os quatro títulos acima possuem TAG ALONG de 80%, porém divergem no Dividend Yield: as ações preferenciais apresentam um yield maior. Ou seja, as ações PN levam vantagem quando observados esses dois quesitos.

Enfim, não é por que o P/L está baixo ou alto que a ação está barata ou cara, haja vista algo ser caro ou barato vai depender do referencial, do investidor (Like Dilma). A ideia que se deve ter em mente é a de que se esta comprando um pedaço de uma grande infraestrutura com um potencial de geração de capital. Cabe a cada investidor avaliar avaliar a liquidez, o retorno e o risco.

PSR

O Price to Sales Ratio (PSR) representa o preço de aquisição da cota pelas vendas da entidade, sua receita líquida. Funciona similar ao P/L, mas utiliza a receita líquida no lugar do lucro. Algo como P/R, onde R representa a receita líquida. Cabe ressaltar que esse indicador não é utilizado em empresas do setor financeiro, uma vez que não há receita líquida.

GRND3  LAME3 WEGE3 EZTC3
3,61 1,1 3,23 5,69

Quem acompanha os posts da série análise de DRE já tem conhecimento razoável da estrutura desse relatório. É uma demonstração vertical na qual a primeira linha é a receita bruta e a última, o lucro líquido. Entre essas linhas há uma séria de deduções e acréscimos como custos, despesas e receitas até se chegar ao lucro. Ao final, dividi-se o lucro líquido do exercício pelo número de ações emitidas para se chegar ao LPA.

Embora o PSR seja menos popular que o P/L, acredito ser mais confiável, haja vista sofrer menos influência de questões pontuais como a venda de algum ativo de valor relevante. Hipoteticamente, se a Coca-cola vender a própria marca, certamente terá um dos maiores resultados da história em números absolutos, ensejando um P/L tendendo a zero (considerando um preço estático).

Por outro lado, a receita advinda da comercialização de seus produtos permanecerá inalterada. Dessa forma, o PSR é um indicador mais constante e confiável que o P/L. Todavia, não pode ser utilizado de forma isolada, pois desconsidera o efeito financeiro no resultado, que fica em linhas intermediárias da demonstração. Ou seja, uma empresa pode apresentar um PSR pequeno (ótimo), mas um gigantesco P/L.

Considerações

Além dessas há outros indicadores que serão vistos em outros posts. Porém, estes já auxiliam bastante na tomada de decisão. Outros indicadores interessantes são os ligados ao endividamento da entidade, resultados financeiros, indicadores de crescimento e outros. Se tiver ciência de algum indicador interessante, pode deixar uma comentário que poderemos fazer alguns comentários e, quem sabe, sai um outro post.

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Kroton – Estudo de Caso – Como funciona a demonstração de resultado de exercício #6/10

Bom dia. Seguindo no ICON, temos a Kroton com 7,6% da composição do índice. Depois de passarmos por vários posts explicando a teoria e aplicações em estudos de caso, chegou a hora de dar uma geral no resultado do exercício de alguma empresa. Aqui, para facilitar, utilizarei os gráficos do site Fundamentos, haja vista ter um certo grau de confiança e já exibir os gráficos de maneira instantânea. Segue o link.

Receita Líquida

Entre 2008 e 2009 a receita se manteve estável e, em 2011 inicia o crescimento que explode 2014, se mantendo estável desde 2015. No primeiro trimestre de 2017 segue estável em mais de 5 bilhões de reais. Aparentemente, a crise não afetou muito o setor de educação.

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Margens

As margens bruta e EBIT cresceram de 2010 até 2014 e seguem estáveis. Acompanhando a queda da receita no terceiro trimestre de 2016, as margens também caíram. Em tese, mesmo com uma menor quantidade de alunos, os custos de uma instituição de ensino não cai muito, uma vez que são mantidas as estruturas físicas e o pessoal, implicando diminuição das margens. A margem bruta atingiu 60%, exibindo a viabilidade do negócio. Descontando os gastos operacionais e administrativos, temos a margem EBIT com 30%.

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EBIT

O resultado operacional também se mantém estável acima do R$ 1,5 bilhão de reais. O resultado EBIT em si não é tão interessante para se olhar quando não se conhece a instituição ou a empresa, haja vista não ser possível identificar se os valores são interessantes ou não. Todavia, as margens acima suprem essa lacuna. O EBIT se mantém estável, com a receita e as margens. Além disso, as margens estão interessantes. Uma dica é comparar com as margens da Estácio. Adianto que a margem EBIT dessa instituição está em 15%.

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Financeiro

O resultado financeiro da Kroton também está agradando, ainda mais se comparado com a Estácio, que tem uma piora progressiva nesse resultado. A Kroton, desde 2016, vem tendo uma grande performance financeira. Crescimento bem interessante. No entanto, será que continuará com esse pique? Pouco provável. Todavia, se não tendo dívida, já está em um bom patamar.

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Lucro Líquido

O lucro líquido da entidade tem se mantido, como a maior parte dos indicadores, estável. Os proventos, talvez por não se ter muito onde investir, continuam a crescer. Alguns investidores têm como primeiro ponto o lucro líquido. Não se importando muito com as operações da entidade, nem se o lucro é mais financeiro ou operacional. Selecionam empresas que possuem bons lucros para posteriormente fazerem uma segunda peneirada.

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Comentários

Como empresa, a Kroton me parece muito saudável. Agora, didaticamente não mostrou muita surpresa, pois seus números são bons e constantes. Não vejo do que reclamar. Analisando unicamente o desempenho, eu teria duas preocupações: a) a taxa de crescimento da Kroton e de sua receita, que não apresenta recuperação; b) O preço que se vai comprar a ação se for o caso de comprar tudo de uma vez e não fazer preço médio. Enfim, espero ter sido útil para se aprender.