Estava um pouco ansioso para escrever este post. É minha biografia. Provavelmente, conhecer como foi minha vida aqui não te transformará num vencedor, tão pouco num perdedor. Um texto simples de uma pessoa simples que lutou bastante para crescer e se desenvolver. Espero que agrade.

Nasci de uma família classe média sem muitos luxos. Tínhamos tudo, TV, teto, geladeira, comida, presentes no dia da criança e natal. Estudei em uma boa escola e tive boas companhias. Todo fim de ano passava na casa de meus avós e toda a família reunida. Sabe, bons tempos em que não haviam obrigações, mas apenas uma vida alegre e simples.

Não sei se eu tinha muitos motivos para ser alegre, mas eu era. O cargo de meu pai fazia com que ele tivesse que viajar constantemente. Por vezes, passava semanas e semanas fora. Lembro do sentimento de saudade e o momento em que ele ligava no começo da noite era especial. Nós falávamos como havia sido o dia e eu pedia para que ele voltasse logo. Eu era apenas uma criança. Não conhecia a responsabilidade da vida adulta. Todos nós tínhamos necessidades, mas meu pai era o único que lutava para saná-las. Sempre lutando.

Na época, ninguém sabia, mas minha mãe tinha alguns transtornos psiquiátricos, que com o tempo se agravaram. Hoje entendo o comportamento dela. Antes, não. Ela sempre tornava as coisas mais difíceis para mim e mais fácil para meu irmão. Era eu que respondia por qualquer ato causado por um de nós, afinal, eu era o mais velho. Apanhei bastante, ajoelhei no milho, fiquei de castigo, enfim. Uma relação difícil, mas quando cresci pensei: é apenas o jeito de minha mãe.

Cresci afastado de meus pais: de meu pai pelo trabalho e de minha mãe por seus problemas. As vezes penso que me criei sozinho. Como disse, não sei por que sou feliz, mas sou. Pelo menos, acho que sim. Pra mim estava tudo bem. Eu nunca conseguia satisfazer minha mãe e meu pai nunca estava por perto. Acho que isso tinha plantado alguns problemas em mim. Eu não sabia, mas tinha.

Um dia, meu pai conseguiu um novo emprego. Ele começou a ganhar muito bem. Muito bem mesmo. Foi uma boa década. Eu tinha dinheiro para pagar faculdade, para pagar combustível, para ir para o shopping, para fazer qualquer coisa. Como não precisava trabalhar, eu passava os meus momentos livres assistindo vídeos, jogando vídeo-games, lendo coisas do meu interesse e até, tomando uma cerveja. Porém, novamente meu pai estava geograficamente distante de nós e minha mãe, emocionalmente distante de mim.

Toda essa distância não era mais percebida por mim. Enfim, eu havia me acostumado. Aliás, era a única vida que eu havia tido, então não sabia como as coisas deveriam ser. Apenas vivia. Até que um dia, meu pai me deu a notícia mais triste de minha vida. Ele estava com câncer e provavelmente não iria viver muito tempo. Sabe, minha cabeça não aceitou isso. Achava que ele iria ao médico, tomaria um remédio e tudo ficaria bem. Só que não.

A doença e o próprio remédio lhe faziam muito mal. Eu o vi definhar sobre sua cama. Certa vez me disse: “sabe, estou com a boca cheia dentes esperando a morte chegar”. Era sério. Ele foi morrendo, morrendo, morrendo e morrendo. Até morrer. Passei dias nos hospital com ele. Internados. Nem queira passar por isso. Profissionais mal pagos e insatisfeitos com o patrão capitalista e em quem eles descontavam? Nos pacientes. Eles prestavam um péssimo serviço. Se escondiam por nada podiam fazer: “não podemos tirar a dor”, “não temos o que fazer”, “olha seu pai foi pra UTI”, “seu pai está com cirrose”, “seu pai está em coma”. Duro.

Fazendo uma parênteses. Eu tinha um namoro de alguns anos. Bem inocente. Eu tinha a ilusão de ter alguém que gostava de mim. Nessa época, a gente tinha brigado por alguma razão fútil. Postei uma foto no face e sai. Quando voltei, ela tinha mandado em “resposta” varias fotos dela com um de nossos amigos em comum. Ou seja, ela não estava namorando comigo, mas com ele. Aquela foi a forma que ela encontrou de terminar nosso namoro. Fim do parênteses.

Meu pai sempre dizia como seria a morte: “as pessoas deixam de existir. A terra come.”. Como em uma de suas viagens, sinto saudade. Só que agora é diferente. Sei que é uma saudade que não vai se acabar. Financeiramente, não me preocupava. Ele, versado no direito, já havia me explicado que deixaria uma pensão. Não me preocupava nesse ponto. Só ficava triste e aos poucos, me despedia.

Com a morte de meu pai, senti muita dor, mas havia algo errado. Minha mãe, não parecia estar tão chocado quanto eu. Os dias se passaram. Não foram muitos, mas passaram. Minha mãe, que mesmo não tendo me dado suporte emocional, começou a me perseguir e assediar moralmente. Ela dizia que eu comia demais, mesmo eu comendo pouco. Dizia que eu gastava água e energia demais, mesmo eu gastando pouco. Dizia que eu gastava espaço demais, mesmo gastando pouco.

Naquele ponto, me senti sendo levando por um tufão. Eu queria tocar o chão, mas não conseguia lutar contra as forças da naturezas. Elas tinham forças incomparáveis. Eu tentava entender o porquê de tanta coisa ruim para um pessoa só. Eu não pude. Em vida, meu pai teve tempo de comprar um apartamento para meu irmão. Depois de sua morte, ele disse para que eu ficasse tranquilo que ele era nosso, mas quando pedi para vendê-lo para que eu pudesse seguir a minha vida, disse para que eu falasse com nossa mãe. Aparentemente, eu não podia contar com ninguém. Olhando pra trás, sinto muito por mim.

Minha mãe era uma pessoa que tratava qualquer pessoa muito mal, inclusive seus empregados. Eles sempre iam embora. Ela começou dizer que eu assediava as empregadas. Coisa que eu nunca fiz. Todos os dias, ela sempre tinha uma piada pra mim. Coisa de gente que não quer você por perto. Ela não me queria por perto. Antes eu tinha dúvida, depois eu tive certeza. A pensão de meu pai ficou para a minha mãe. É assim que a legislação determina. A única coisa que eu tinha era a minha casa e a minha família. Percebi que isso tudo havia acabado.

Eu não tinha dinheiro nem mesmo pra comer. O único emprego que achei com facilidade era o de pedreiro. Não o pedreiro que constrói paredes, mas o pedreiro que faz qualquer coisa. Não sei o porquê, mas eu adorava cavar buracos. Eu achava simples. Quando eu não conseguia trazer a terra com a cavadeira articulada, era por uma única razão: havia uma pedra. Eu quebrava a pedra e poderia voltar para a cavadeira. Era um trabalho duro. Com o passar dos dias, o sol acaba com você. Eu ganhava muito mal. Eles nem transferiam para uma conta, entregavam um pouco de dinheiro em mãos. Era o que tinha pra hoje.

O bom desse emprego é que ele me dava direito a almoçar em algum lugar perto da obra. Eu era acostumado a comer à la carte, comecei a comer em lugares que me obrigavam a escolher “um tipo de carne”, por que “duas não pode”. Lembro que eu sempre podia comer arroz e macarrão a vontade. Sabe, acho que aquelas foram as únicas vezes na vida que comi por fome. Acho que em alguns lugares a comida tinha pelo de gato, mas estava tudo bem. Eu não morreria de fome. Eu era acostumado com hotéis 5 estrelas, comecei a dormir em “hotéis” sem colcha, fronha e travesseiro. Pulgas eram muito comuns.

Talvez não parece nada demais passar por isso, mas para um garoto que havia tido tudo e não tinha muito emocional, era sim. Todos diziam que meu chefe era um babaca e ele era mesmo. Porém, ele me ensinou algo que lembro quase todos os dias. Ele disse – Se você quer alguma coisa, você precisa buscar agora. O tempo passa e fica mais difícil. Quanto mais o tempo passar, mais difícil ficará. Isso até o ponto que você não conseguirá mais lutar e cairá de joelhos.

Eu tinha que buscar uma melhoria. Entrei para o ramo da informática na iniciativa privada. Sabe, o nome faz jus. Privada. Que horror de lugar. Os únicos que ganhavam com o lugar eram as pessoas que faziam parte da cúpula, porque o resto, era o resto. Houvi falar em concursos públicos e comecei a estudar. Cara, eu sabia bulhufas. Não sabia nada de relação humana e não me sairia bem na iniciativa privada. Eu tinha certeza que eu poderia estudar, aprender e passar em um concurso público. Foi isso que eu fiz. Passei a ganhar mais. Mesmo sendo péssimo no que tange a relações humanas, evolui. Isso não seria possível na iniciativa privada, mas era possível no setor público: bastava que eu fosse aprovado em uma prova.

Nunca gostei de estudar, mas estudei e passei em vários concursos. Conheci a minha esposa e tudo ficou mais fácil. Nós éramos o oposto: eu tinha tido uma vida rica e estava pobre, enquanto ela era pobre e estava progredindo. Nós namoramos e casamos. Não sabíamos como lidar com o dinheiro (até hoje tenho dificuldades vide o problema do carro), mas tenho melhorado a cada dia. A cada leitura e a cada texto que posto. Prometo cuidar de minhas finanças.

A história é essa. Hoje tenho esposa e filhos. Quitei o meu 3 carro (ta certo, bola de neve contra, mas foi). Como disse em meu último post, minha mãe me deu uma sala comercial. Tenho certeza que a vontade de vender e torrar tudo é grande, mas o remorso por não ter me amparado, deve ser bem maior. Por mim, tudo bem. Agora eu sou meu próprio pai. Pai da minha própria família. Estou evoluindo e parece que esse ano, tudo vai melhorar bastante. Assim do  nada. Como naquelas passagens bíblicas que alguém é lançado a um deserto para aprender ou como no filme O Conde de Monte Cristo. O mais importante é olhar todos dias para minha família e dizer como os amo.

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4 comentários em “Biografia Maestro Investidor

  1. Grande Maestro.

    Li com carinho seu post/desabafo! Parabéns pela coragem (pois é difícil) e vontade em compartilhar sua história.

    Apesar dos altos e baixos da vida, vide no que se transformou: um cara do bem, consciente de sua história, caminhos percorridos e feliz. Um verdadeiro Maestro de sua vida!

    Abraços

    Curtido por 1 pessoa

  2. Que história, MI. Sinto muito pela passagem do seu pai… Há poucos anos o meu também se foi e não foi fácil pra mim e irmãos, já que ele sempre foi um excelente exemplo pra todos nós. Vejo que sua situação foi ainda mais difícil devido às questões de usa mãe, mas o importante é que hj você já superou tudo isso.

    Bola pra frente e um grande abraço.

    Curtido por 1 pessoa

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